O caduceu emblema de Hermes (Mercúrio) é uma vareta em torno da qual se
enrolam, em sentido inverso, duas serpentes. Assim, ela equilibra os dois
aspectos - esquerda e direita, diurno e noturno do símbolo da serpente. A
serpente possui esse duplo aspecto simbólico: um deles, benéfico, o outro,
maléfico, dos quais possivelmente o caduceu apresenta o antagonismo e o
equilíbrio; esse equilíbrio e essa polaridade são, sobretudo, os das correntes
cósmicas, representadas de maneira mais geral pela dupla espiral *. A lenda do
caduceu relaciona-se ao caos primordial (duas serpentes lutam) e à sua
polarização (separação das serpentes por Hermes), sendo que o enrolamento final
ao redor da vareta realiza o equilíbrio das tendências contrárias em torno do
eixo do mundo, o que leva por vezes a se dizer que o caduceu é um símbolo de
paz. Hermes é o mensageiro dos deuses e, também, o guia dos seres em suas
mudanças de estado, o que vem a corresponder justamente, observa Guénon, aos
dois sentidos ascendente e descendente das correntes figuradas pelas duas
serpentes.
Essa interpretação
insere-se num conceito que faz do caduceu um símbolo de equilíbrio por
integração de forças contrárias: representaria o combate entre duas serpentes, do
qual Hermes seria o árbitro. Esse combate pode simbolizar a luta interior entre
forças antagônicas, de ordem biológica ou de ordem moral, que compromete a
saúde ou a honestidade de um ser. E assim é que, entre os romanos, por exemplo,
o caduceu representa o equilíbrio moral e a boa conduta: o bastão representa o
poder, as duas serpentes, a prudência, as duas asas, a diligência, e o
capacete, os pensamentos elevados. Todavia, neste caso a interpretação não
ultrapassa de modo algum o nível do emblemático. O caduceu reúne também os
quatro elementos da natureza e seu valor simbólico: a vareta corresponde à
terra, as asas, ao ar, e as serpentes, ao fogo e à água. No que concerne a
estas últimas, porém, não é apenas o seu rastejar serpenteante que as faz semelhantes
ao movimento ondulatório das vagas e das chamas ou que as assimila à água e ao
fogo *: é sua própria natureza, ao mesmo tempo ardente, pela mordida venenosa,
e quase líquida, pela fluidez de seus corpos - o que as torna fontes de vida e
de morte a um só tempo. Segundo o esoterismo budista, particularmente o
ensinamento tântrico, o bastão do caduceu corresponde ao eixo do mundo, e as
serpentes, à Kundalini, essa força que dorme enroscada em espiral na parte
inferior do dorso humano, e que se eleva através dos chakras sucessivos até
acima da fontanela (ou moleira), símbolo da energia pura, que anima a evolução
interior do homem. Efetivamente, o que define a essência do caduceu é a própria
composição e a síntese de seus elementos. Ele evoca o equilíbrio dinâmico de
forças opostas que se harmonizam para constituir uma forma estática e uma
estrutura ativa, mais altas e mais fortes. A dualidade das serpentes e das asas
mostra esse supremo estado de força e de autodomínio que pode ser realizado
tanto no plano dos instintos (serpentes) quanto no nível do espírito (asas)
(CIRD, 34-36). No entanto, o caduceu permanece como o símbolo da enigmática
complexidade humana e das possibilidades infinitas de seu desenvolvimento. O
atributo de Hermes (Mercúrio) é feito de uma vareta que é a vara de ouro, ou a
árvore da vida, em torno da qual se enrolam simetricamente, em forma de 8, duas
serpentes *. Hermes , diz Homero, segura a vara por meio da qual ele embruxa a
seu bel-prazer os olhos dos mortais ou desperta aqueles que dormem (Ilíada,
XXIV, 343-344).